
“Tem dias que a gente se sente/Como quem partiu ou morreu/A gente estancou de repente/Ou foi o mundo então que cresceu” Chico Buarque
Na solidão do quarto cheio de pessoas Ana sentia-se sozinha. As conversas não lhe interessavam e constantemente fixava um ponto qualquer e ficava pensativa. Difícil saber no que pensava. Ultimamente falava e andava por aí com uma falta de interesse enorme, era como se para ela o mundo tivesse encolhido, é como se as pessoas houvessem voltado há um estado de ignorância e estupidez completa. Mas, pensava também que talvez fosse ela que houvesse perdido o interesse, a curiosidade, enfim, o prazer da descoberta.
De repente parou de ler, começou a odiar Chico Buarque e o cinema a entediava. Tudo era insuportavelmente sufocante. Nada era bom o suficiente. Sua irritabilidade havia chegado ao extremo, não podia se suportar. Suas ideias começavam a sufocá-la, suas mãos enrugadas lhe fazia sentir uma tristeza mortal e seus olhos eram de uma escuridão dilacerante.
Ontem, foi encontrada morta no seu cubículo, um tiro no olho esquerdo, o estrábico. Deixou um pequeno bilhete, no qual pedia perdão, do que ela não considerava pecado, mas mesmo assim quis a absolvição de todos. Antes de morrer rezou fervorosamente para que sua alma encontrasse a paz que procurava, quem a visse ali de joelhos rezando pensaria que tinha uma fé enorme e que acreditava em Deus, mas não foi pela fé ou por Deus, foi por desespero, foi por ela e para ela que rezou.